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gradatio

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vacivus

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intratus (em Pátio Victor Malzoni)

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transversus

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ruditus

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marginalis

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hibernum

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expetere

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ad vesperum

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fiat lux

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in excelsis

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iridis

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accensus et pacare

accensus et pacare

livorem

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Esquizofrenia

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Ouço o som de mensagem recebida. Abro o aplicativo e leio a pergunta:

- F20?

Me perguntei: será que é algum novo código a lá 4h20 (simbologia associada a usuários de maconha)? Cheguei a pensar num automóvel ou avião que acho que têm esse nome. Mas como não entendo nada de carros ou aviões, descartei as duas hipóteses e questionei:

- O que é isso? Ele respondeu:
- Esquizofrenia.

Começou o ping-pong:

- Uau! Você é psicanalista?
- Também!
- E o que mais?
- Psiquiatra.
- Interessante. Tenho perfil de esquizofrênico, doutor?
- Personificação de coisas é um sintoma alucinatório.

Fiquei atônito. Corri pro Google pra confirmar e lá estava a Wikipedia toda sabichona tirando sarro de mim. F20 é a esquizofrenia paranóide, que se caracteriza pela presença de ideias delirantes, frequentemente de perseguição, com alucinações auditivas e das percepções. Ao mesmo tempo que fiquei atônito eu fiquei levemente feliz. Sempre disse pra mim mesmo que não era normal. Lembro que por volta dos 7 ou 8 anos, sentado no banco de trás do carro dos meus pais, eu, pequeno, olhava pra janela, ao alto  via a copa das árvores num lugar que parecia um parque de tão fechadas que eram. Passávamos por alí uma vez por semana e apenas eu, meus pai e minha mãe. Meu irmão ficava em casa provavelmente com minha avó paterna. Chegávamos a um sobrado branco que na entrada havia uma saleta e a escada tinha assoalho de madeira. Anos depois eu descobri que a copa das árvores que eu via eram da Avenida República do Líbano e que o sobrado branco, no Jardim América, era na verdade um consultório de psicologia infantil.

Me recordo também que na passagem da infância para a adolescência, eu gostava de inventar cidades, parque de diversão e que passava dias debruçado sobre mapas. Certa vez pedi o cartão de crédito da minha mãe para comprar ingressos para a Bienal que teria obras de Picasso e Warhol. Detalhe, eu tinha uns 12 anos. Minha mãe até hoje nem deve saber quem foi Picasso e Warhol. Na época ela vivia dizendo que me internaria no Juquerí. Essa palavra estranha foi o nome de um famoso hospital psiquiátrico na zona norte de São Paulo, que fez com que a palavra juquerí fosse sinônimo de loucura ou de doença mental de forma geral. Juquerí, que também era o nome do município onde estava instalado o hospital e que em tupi-guarani não tem nada a ver com alguma psicose, precisou ser modificado para Mairiporã, que na mesma língua significa “localidade bonita”. Tudo por causa da associação com a loucura.

Mais tarde, por volta dos 20 anos, achei que estava paranóico por conta de um amor não correspondido. Pensei em suicídio por diversas vezes. Certa vez tomei algumas gotas de perfume achando que me envenenaria. Gotas de perfume? Por favor, né? Abdicar da própria existência é um ato de coragem e coragem era algo que eu não tinha aos 20 e poucos anos. E acho que não tenho até hoje, ainda que as vezes eu pense nisso mas agora por questões filosóficas. Schopenhauer que as diga.

Hoje não tenho a ingenuidade da infância, o sonho da adolescência ou a insensatez dos 20 e poucos anos. Será que quando eu chegar aos 40 anos vou olhar para trás e dizer que meus 30 foram anos esquizofrênicos? Lá atrás eu disse ter ficado um pouco feliz com a ideia. Afinal de contas, atualmente ser normal é algo bem chato. Cada vez mais vejo as pessoas aderirem as coisas, principalmente em redes sociais, sem nenhum raciocínio lógico. O fazem apenas porque os amigos estão curtindo, compartilhando ou comentando numa necessidade tremenda de pertencerem a algo. Quem está mais louco? Eu ou os outros? O mundo? Cada vez mais ouço as pessoas falando que o mundo está louco. Voltaire já dizia: “Somos todos malucos. Quem não quer ver malucos, deve quebrar os espelhos.” E vocês que fazem besteiras, mas se dizem normais? A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal. Bukowski diz que de qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma? Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formado sobre tudo. E as vezes vocês é que me dão nos nervos. Cadê meu ansiolítico?

r.

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