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natura mortuus

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Paul Claudel sabia das coisas. #DiaDoBeijo

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opus (em sp-arte/2014)

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intrare aut exitus

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et unum ex alio (em Bella Paulista)

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duo latu

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pulcrum tempus

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veteres et novi

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Ser solteiro

Comprei um porta escovas de dentes. Na verdade eu comprei um kit de utensílios para o banheiro. Não! Sério! Na real eu queria apenas um copo de porcelana para organizar pincéis. Perguntei pra vendedora se poderia levar apenas o copo ou se haveria um parecido pra eu comprar. Nada feito. Tive que levar o kit com copo, saboneteira, porta sabonete líquido e o porta escovas de dentes.

É estranho ter um porta escovas de dentes quando se é solteiro e não se divide o apartamento com roommates. Também não tenho o hábito de receber visitas e quando isso acontece eu prefiro ter escovas de dentes descartáveis, como aquelas de hotéis. Quer coisa mais impessoal do que escovas de dentes descartáveis? Mas também, pra que criar intimidade com quem está de passagem? Afinal, ganhar um lugar no porta escovas de dente é algo de uma intimidade extrema. Pelo menos ao meu.  E talvez por isso eu esteja achando estranho ter um porta escovas de dentes no banheiro. Tá, eu sei que ficou lindo o banheiro com ele e todo o kit. Agora está tudo organizadinho. Mas não reflete a vida do dono. De modo algum. Pelo contrário. Antes, quando a escova não tinha um lugar para chamar de seu, ela ficava alí, meio jogada num canto da pia, sofrendo todas as intempéries dos meus dias de bom e mal tempo. Ela parecia até um desses mendigos de rua que ficam jogados nos cantos embriagados às 10h da manhã. Ok. Eu estou exagerando. Mas o que eu quero dizer é que a pobre da minha escova de dentes refletia melhor o meu verdadeiro eu. Ela vivia sozinha, jogada, meio renegada. Tadinha!

Assim como a Rita Lee, um belo dia eu resolvi mudar e organizar as coisas. Fui a Tok Stok - não me julguem - e me encantei com o copo pra por os pincéis, que de quebra foi levado pra casa com seus outros parentes para morarem no meu banheiro. Ah, isso eu já contei. Então, aí a solitária escova de dentes ganhou um lar digno, uma casinha de porcelana branca, de formas arredondadas, minimalistas tal o gosto do seu dono. Agora ela não fica mais jogada. Tá sempre de pé e pronta pra ser usada. Agora ela sempre a enxugada com a toalha, após seu expediente, pra não deixar sua casinha molhada por dentro e com isso trazer bichinhos pro seu convívio. Ela não merece, coitada. Tão parceira minha, eu lhe devo esse respeito e reverência. Porém, me bateu uma neura. A casa da escova de dentes tem três quartos, três buraquinhos pra por outras escovas. Ah! Já ia me esquecendo, mas também tem um buraco maior que é onde mora o creme dental. Mas esse não vem ao caso, pois o assunto aqui são escovas de dentes. Elas nos acompanha muito mais que o creme. O creme é descartado com mais facilidade. Além do mais, o creme sozinha não serve pra nada. Já uma escova sem um creme ainda quebra um galho, né? Por isso o meu respeito por ela, pois até no sufoco estão com a gente.

Mas porque três buracos no porta escovas de dente? Pode ser que o designer que o desenhou pensou nos tempos modernos de casais héteros que vivem em grandes cidades e fazem planejamento familiar, preferindo ter apenas um filho. Logo, alí tem espaço para papai, mamãe e filhinho. Não me representa. Mas pode ser que ele tenha pensado nos jovens que dividem apartamentos, afinal isso é muito comum hoje. Meu cu pra essa situação. Será que o designer (se é que há um por trás desse famigerado objeto) é mais safado ou promiscuo e dívide a cama com mais de uma pessoa? Seria ele adepto do ménage à trois? Bígamo? Só pode! Que mente mais podre poderia por três buracos nesse troço? Solteiro ele não é. Se o fosse teria colocado apenas um buraco. É, pode ser que ele seja casado e tenha um filho. Ok!

Toda vez que olho pra aqueles outros buracos desocupados, vazios e na condição solitária da minha escova de dentes eu penso na minha situação também. Ambos solteiros. Tudo bem que hoje eu tenho casa e a escova também. Não sou um qualquer e a minha escova de dentes também não é. Ela é suíça! Tá pensando o que? Até nisso ela reflete o dono. Não sou suíço, mas sou metido. Ainda assim isso não tem ajudado a encontrar um par a altura dela. E também não tenho encontrado um rapaz a minha altura. Nunca tive coragem de levar qualquer um pra casa, do mesmo modo que não entra qualquer um em meu coração. Isso acaba virando metáfora para pra escovas de dentes também. Pôr uma escova a mais no porta escova de dentes não é das coisas mais simples do mundo. Exige um esforço tremendo, dedicação, não se faz do dia pra noite e requer intimidade acima de tudo. Eu até poderia por uma escova a mais apenas pra tirar graça. Mas isso seria a mesma coisa que usar uma aliança sem ter um namorado. E tem um monte de gente por aí que faz isso. Enquanto alguns comprometidos tiram suas coleirinhas pra sentirem-se livres e dizem pra seus respectivos que não estão de aliança por medo de perdê-la quando lavam as mãos. Portanto, melhor não se auto-enganar e deixar o porta escovas de dentes apenas com uma escova mesmo. O coração tá vago e o porta escovas  está lá pra me lembrar disso ao menos três vezes por dia, conforme recomendam os dentistas. Maldita hora que eu comprei um kit pro banheiro.

r.

imaginem sui

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lunae inter aedificiis (em Restaurante Spot)

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marginale pinea

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prandium sabbatu (em Bistrot de Paris)

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pitinnu domus

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